Pirei no Conto

Pirei no Conto

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Doutor Strangelove, ou Como Aprendi a Amar a Coxinha e Fugi para Miami - Só Que Não










Como todos sabem, após o golpe comunista perpetrado por Lula em 2002, os empresários que não conseguiram fugir para Miami acabaram presos e torturados, quando não foram mandados pro Acre.
A Revolução Cultural Brasileira levou milhões de pessoas da classe média para programas de reeducação, colhendo cana ou trabalhando em seringais ou carvoarias, sob péssimas condições de vida.
Smartphones e carros importados foram derretidos para criar grandes estátuas dos líderes supremos, à vista e choro de seus antigos donos.
Ministério Público, TCU, CGU e outros órgãos de controle foram extintos. A Polícia Federal tornou-se a Guarda Vermelha, e persegue elementos antirrevolução (geralmente pequenos empresários e profissionais liberais) para prendê-los nas prisões superlotadas do país. Quando descobertos pela própria população, são linchados em praça pública pelos antigos empregados domésticos.
O crime de machismo é castigado com as mulheres atirando sapatos salto quinze no réu até o falecimento. E todas as igrejas agora são obrigadas a usar uma estrela vermelha em lugar da cruz. Igrejas que por lei só casam gays, pois heterossexuais sofrem pena de morte.
Acorda colega!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Você tem o mal gosto de botar a imagem da própria Presidente da República de pernas abertas no seu tanque de gasolina, na frente dos seus filhos. E leva só um pito de uns desconhecidos.
Faz passeata pedindo uma intervenção militar, vestido com a sua camisa da Copa. E é protegido pela polícia, isto é, pelo poder público.
Assiste uma novelinha em que o padrasto transa com a esposa e sua filha juntos. Mas faz um auê por causa dum beijo bobo entre duas mulheres. E sabe o que te acontece? Nada.
Fica aí na frente do seu smartphone último tipo, reclamando nas redes sociais que por causa do governo não pode mais viajar uma vez por ano ao exterior. E enquanto isso a sua empregada fica lá, lavando o seu vaso sanitário, pra depois pegar duas horas de ônibus pra voltar pra casa. Te acontece algo? Nadinha.
Reclama de falta de educação, mas nunca defendeu a escola pública. Reclama de corrupção, mas faz gatonet e compra DVD pirata. Quer mais segurança pública e justiça para todos, mas se amarra em um linchamento.
E nada, nadinha te acontece! Pode reclamar do que quiser pra quem quiser!
De que ditadura você tá falando?!
Sabe de uma coisa? Vai pra Miami, cara! Mas vai logo!
Mas saiba que vai ser obrigado a ter a maior finesse com quem você odeia aqui: mulheres, gays, imigrantes, pessoas de outras religiões e raças, ateus... Lá ninguém vai sentir graça das suas piadinhas.
E vai ter que lavar a própria cueca, e saber onde fica o fogão e as panelas se quiser comer alguma coisa.
Bem vindo às democracias liberais. Aquele lugar em que a meritocracia é pra valer, no qual cada um se vira por si. Em que as pessoas respeitam as diferenças de ideias, sem clamar por uma ditadura.
Ah, e sobre o início do texto... Não, o Brasil não é uma ditadura comunista-gayzista-feminista. É só olhar ao redor.
Você é que tá viajando, meu caro. E não é pra Miami. PNC!





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"Vai uma coxinha de frango aí?..."
" Nãããããããããããooooo!!!!!"



            Paz e amor, galera! Você pode ser de que bandeira for, tá tudo certo! A boa troca de ideias faz parte da democracia. E enquanto isso... Mande um e-mail! Comente, critique, elogie, pire!

                                                             felipesilvaberlim@gmail.com

             E nos vemos no próximo conto, que já está saindo do forno: "O Amor de Narciso"... Aguarde!  ;)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Crônica: A Intangibilidade do Encontro

     





Deveria haver uma nova classe de verbos. Há os de ligação, os transitivos e os intransitivos.
Sugiro uma nova classe: os verbos espelhados.
Porque há aqueles que nos permitem, em um exercício de devaneio, entrar em uma casa de espelhos. Um lugar em que o espelho é sempre o outro, e o espelho do outro é você mesmo.
            Como o verbo “pensar”.
Eu penso sobre o que você é.
E você pensa sobre o que sou.
Mas eu também posso pensar sobre o que você pensa de mim. E assim por diante.
É sempre possível acrescentar mais algo: eu penso no que você pensa que eu penso que você pensa que eu penso que você pensa que eu penso que você pensa que eu penso...
E continuar nesse encadeamento para sempre.
E nisso, seus olhos refletem os meus até não mais poder.
 E o que você, ou eu percebemos, de fato, entre esses espelhos?
Talvez muito pouco.
Pois afinal, quem pode dizer que realmente conhece ou entende o outro?
Mas apesar dessa impossibilidade de sabermo-nos, há uma continuidade entre mim e você, e de nós a qualquer pessoa.
Pois o que exalo em minha respiração um dia poderá fazer parte de você:  o ar que sai de meus pulmões um dia será absorvido pelos seus, e fará parte de seu corpo.
E todos os átomos, de tudo que existe, inclusive do meu e do seu corpo, foram formados dentro de fusões ocorridas dentro de estrelas.
Que um dia deixaram de existir, formaram nebulosas, e de lá nasceram outras estrelas... Inclusive nosso sol e nosso planeta.
Deste pó criado das estrelas viemos. E a este pó um dia retornaremos.
E após a sua e minha morte, começará nossa metamorfose:  a água do meu e do seu sangue e de suas e de minhas lágrimas formarão nuvens e rios. O ar sairá por nossas narinas e será atmosfera. Nossos músculos e ossos farão parte dos grãos de terra.
Elementos que serão absorvidos pelas raízes das plantas, respiradas pelos animais, bebidas por pessoas que não conheceremos. Formarão outros seres vivos, e outros seres humanos.
Se nossa consciência é finita e curta, nossa vida é eterna, e somente se transforma em outras vidas.
Somos e não somos os mesmos seres.
Mas o que realmente somos?
Vivemos essa constante ironia: nossas mentes encontram-se eternamente nessa casa de espelhos e de sombras...
Mas que fora delas é uma e só coisa, múltipla e sem limites.
E de toda essa contradição de nosso olhar, de nosso vir-a-ser, ao transcender o ponto de vista breve de um ser humano...  Essa aparente casa de espelhos reflete a si mesma, e torna-se algo além. Um ponto e um centro.  
Que de ponto, torna-se infinito.
Tão próximo, e tão intangível.






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"Como diria Raul Seixas: 'Ser ou não ser, eis a questão...' Peraí, acho que tem algo errado aqui..."




Ok, enquanto eu tento tirar essa taturana da cabeça... 
Seja esperto, e deixe seu comentário, suas críticas e elogios!  ;)  


Beijos do cerrado, queridos! E até o próximo post! <3

domingo, 19 de julho de 2015

Crônica: Uma História da Carochinha

     




Há quem diga que no Brasil não existe preconceito de raça, que é tudo uma questão social.
Já imaginaram um diálogo, assim, bem sincero, entre alguém que quer alugar um apartamento e os candidatos a inquilino, usando esse argumento?
“Frederico tinha um apartamento para alugar nas quadras 300 do Plano Piloto, um dos locais mais caros de Brasília. E marcou com um rapaz de ver o lugar. Mas o cara que chegou era negro.
O Frederico já pensou logo: "Esse preto tem cara de pobre. Depois me atrasa o aluguel..."
Deram uma olhada no apartamento, que era bom. Marcelo – o nome do rapaz negro – perguntou o preço.
- Então, já está alugado. – respondeu o Frederico, com um sorriso amarelo.
- Puxa, que pena. Não sabia. Tudo bem. Vou ver outro lugar. – respondeu o Marcelo.”
Fim.
Mas peraí. Eu falei que ia rolar um conversa com o argumento da questão social. Que tal reformulamos esse diálogo?
Mas antes que eu faça isso, já perceberam que eu não disse de qual raça era o Frederico?
Não precisa, né? Você, meu caro leitor, já sabia que ele era branco, não é mesmo? 
Se você leu até aqui, você não é racista. Mas já parou para pensar nisso? É automático. A nossa cabeça é colonizada. E nela um homem branco é a regra. Os outros é que são a exceção. Tá tão assustado quanto eu? Pois é...
Mas continuando... Eu disse que ia reformular o diálogo, né? Usando o argumento de que o racismo é uma questão social. Afinal, se isso é um bom argumento, todo mundo devia usar isso no dia-a-dia, não?
Nesse caso, seria assim:
“Frederico..."  - vou dizer que ele é branco, estamos combinados? Afinal, ele podia ser de qualquer outra raça, só para lembrar...
Bom, recomeçando... 
"Frederico, um branco, queria alugar um apartamento nas 300. E o primeiro cara que apareceu para alugar chamava-se Marcelo – e era negro.
Quando o Marcelo quis saber o preço, o Frederico respondeu assim:
- Então, Marcelo... -  falou de forma simpática - Você é negro, não é mesmo?...
- É... Sou. E daí?
- Justo.  - respondeu Frederico, entusiasmado – Você é  jogador de futebol, sambista?...
- Não... Imagina! – respondeu Marcelo constrangido – Eu sou empresário, dono de uma concessionária.
- Ah, tá... Não, cara, ó, pode falar à vontade comigo. Eu entendo. Você morando na periferia, tentando melhorar de vida...
- Eu moro no Lago Sul, cara!
- Ah, tá... Lago Sul... – disse Frederico, sem acreditar - Olha, os seus tataravôs vieram em navios negreiros... Morria mais da metade na viagem, né?... Depois chegaram, moraram em senzalas...
- Onde é que você quer chegar com isso?
- ...e depois da Abolição, foram morar longe, em favela, não tinha trabalho, não tinha dinheiro... Então, você, empresário?...  Morando no Lago Sul? Cara, uma pessoa negra no Brasil... É uma questão social, histórica...
- Não tô entendo...
- Tá, eu sei que você, lá na favela, foi mal alimentado, estudando em escola pública, muita greve de professor... Vai ter dificuldade de entender uma situação histórica, social... Mas eu vou explicar! Olha, veja você: um negro, no Brasil, empresário?... Que carro você tem?
- Um Corolla. Tá estacionado lá embaixo. Beeem caro, sabe? – disse Marcelo, já atravessado.
- Viu?! Um Corolla... Não, não tá certo!!!  Pelo IBGE, era no máximo pra você ter um carro usado, daquelas que tão meio caindo aos pedaços, sabe? Isso se você não viesse de ônibus, que era o mais provável.
- Ah, jura? – o sangue já subindo na cabeça do Marcelo.
- Cara...  Olha, o que é que adianta?...  No mínimo, você tá querendo pagar algo acima do que você pode. No máximo, você falsificou os documentos, e alugou esse terno que você tá vestindo, não é verdade?
- Esse terno eu comprei na Itália!!!
- Marcelinho, Marcelinho... Você quer que eu acredite que você comprou isso no exterior? Olha como tá mal cortado!... Vai dizer que você não comprou na Feira do Rolo da Ceilândia?...
- Cara, eu ia até pagar adiantado... Não to acreditando no que eu tô ouvindo...
- Olha, vamos fazer o seguinte. Pra você não ficar constrangido, digamos... Di-ga-mos!... Que eu já tenha alugado pra outra pessoa.
- Quê?! Você já alugou?!
- Nããão!... Mas olha só, se eu dissesse pra você que eu não quero mais alugar, o que você ia pensar?
- Eu ia pensar que era racismo, né? Óbvio!
- Pois é! Agora, olha bem pra mim! Você acha que eu sou racista?
- ...
- Claro que não, cara! Se você quiser, vamo comer uma feijoada qualquer hora, eu tenho vários amigos negros. Até te mostro a minha coleção de discos do Martinho da Vila!
- Cara, eu nem gosto de samba!!!...  Eu toco violoncelo!!!!
- Marcelo, você tá dificultando as coisas. Vamos fazer assim: eu digo que já aluguei, você vai procurar outro lugar, e continuamos amigos. Tudo bem?
- Como é que é?! Você quer que eu seja seu amigo?!
- Agora estamos conversando... Pô, maravilha, cara! Foi um prazer te conhecer, a gente continua se falando, tá bom? E olha, eu tenho uma mãe-de-santo, que vou te contar... Pode te ajudar muito a encontrar um apartamento, viu? Vou te recomendar, faço questão!
- Mas eu sou ateu!!!!!
- Marcelo, Marcelo... Você tá dificultando de novo!...


E viveram felizes para sempre, em plena democracia racial. PNC!








E esses são só alguns exemplos da nossa democracia racial... Você deve conhecer, outros, caro leitor... Infelizmente.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O Clube dos Corações Solitários

Resultado de imagem para coração solitário imagemWalter e Fabiano conheceram-se em Brasília. Fizeram amizade na noite. Fabiano acabava de chegar em Brasília, e vinha do Paraná. Não conhecia ninguém. Mas tinha uma cara de pau, que Deus me livre. Isso, uma bela face e um bom carisma.
Quando ele pediu um cigarro para Walter este último já ia negar, é claro. Tem coisa mais chata que cara pidão? Que vá comprar o seu maço, pensou. Mas Fabiano era tão legal e gente boa, que não só Walter acabou dando o cigarro de bom grado, como acabaram os dois bebendo na mesma mesa, e terminando a noite em uma boate azarando as gatas.
Encontraram-se outras vezes, e a amizade se fortaleceu.
E descobriram que ambos fizeram publicidade na faculdade.
Fabiano passara recentemente em um concurso no Ministério da Agricultura e Abastecimento, para fazer a programação visual do lugar. Não tinha muita grana – o Poder Executivo não paga muito.
Já Walter trabalhava em uma agência de publicidade no Pátio Brasil, um shopping da cidade no Setor Comercial Sul. Tinha ainda menos bufunfa, a iniciativa privada paga pior em Brasília. Isso sem falar na possibilidade de perder o emprego.  Estabilidade era coisa de concursado.
Encontravam-se de vez em quando no Balaio Café, para dançar um samba, ouvir um chorinho, ou simplesmente bater um bom papo, com uma birita geladinha.
E foi lá uma vez, no meio da semana, quando cai o movimento nos bares, que repararam em quanta gente sentava nestes dias sozinha. Só elas, uma garrafa de cerveja e seus smartphones.
Uma delas era uma moça, mais para feinha. Parecia um tanto triste. De vez em quando tirava os olhos do seu aparelho, e ficava mirando o vazio, melancólica.
Já meio bêbado, Fabiano, que era mais impetuoso, levantou-se e foi para a mesa da moça, sob os protestos de Walter:
- Ô, cara, para onde você vai?
- Peraí que eu já volto!
E não foi que o raio do Fabiano trouxe a moça para a mesa deles?
E foi aquele esquema, um tanto chato para o Walter: a garota falando do bolo que havia levado de uma paquera. E Fabiano ouvindo a conversa atento.
Já estava ficando tarde, o bar foi fechando. Trocaram telefones com ela, aquele lance de educação, sem muita esperança de se reverem. Mas tinha sido um papo legal.
Quer dizer, exceto para o Walter.
E em outros dias, o Fabiano passou a fazer o mesmo: escolhia quem estava solitário em uma mesa, e puxava papo.
O Walter estava ficando meio de saco cheio dessa história. Mas tentava lidar, gostava da companhia do Fabiano. E no meio das histórias tristes, o Fabiano dava suas tiradas.
Às vezes, nem o Walter, emburrado, conseguia segurar, e dava risada junto. Estava começando a ficar divertido aquilo.
Nas boates, começaram a caçar quem ficava de canto, assim, meio murcho. E logo diziam uma palavra, davam um jeito de fazer a pessoa se divertir com eles. O Walter entrou na brincadeira. E agora era ele, depois de uns goles de tequila, quem chamava alguém mais quieto para dançar com aquela turma estranha de solitários anônimos. Juntavam uma turma de cinco ou seis pessoas, e ficavam se divertindo o resto da noite.
E foi daí que Fabiano captou o que estava rolando. E cochichou com o Walter que podiam marcar umas festas lá no apartamento dele.
O Fabiano morava em um apartamento bem grandinho na 415 Norte. Tinha alugado por uma pechincha, um verdadeiro achado.
E o Walter embarcou na do Fabiano. E começaram a espalhar no boca a boca e no whatsapp dos solitários o barato de se encontrarem todos em um lugar só, ao som dos Smiths, do The Cure e do The Doors.
O Walter tinha uma lista ótima de músicas no seu notebook. E ia discotecar a festa.
Foram umas dez pessoas. Ótimo para uma festa de apartamento. O Fabiano descolou umas luzes, tirou os móveis da sala, foi um sucesso.
E uma vez por mês repetiam o evento, que agora tinha nome: Clube dos Corações Solitários.
As festas começaram a ficar cada vez mais cheias. E nessas, tanto o Fabiano quanto o Walter se deram bem, e descolaram umas garotas.
O Fabiano conheceu a Dinorá, o Walter, a Raimunda. Que ao contrário da rima, era boa em todos os quesitos. Um rosto lindo, e uma cabeça boa também. E excelente conversa.
A Raimunda falava de tudo, de filme alemão a mapa astral. O Walter também era meio culturete, e chegado em um esoterismo. Todo mundo achava que eles combinavam.
Mas só ficaram algumas vezes. E uma vez o Walter foi para a festa sem a musa. É, tinha acabado de vez.
Por isso o Walter começou a ficar meio enciumado da Dinorá. O Fabiano não largava dela, a relação entre eles estava ficando séria.
O que ninguém contava era que o Walter, com aquela pose toda de machão e outsider, tinha um quê pelo Fabiano.
E isso o Walter não confessava nem para ele mesmo. Para ele era uma questão de amizade, de amigo-quase-irmão, e só.
Mas de repente o Walter dava umas vaciladas. Era uma festa que não dava para ir, a outra também não. E quem costumava discotecar tudo era ele. O Fabiano dava um jeito, botava umas músicas que conhecia, mas não era a mesma coisa.
E logo o Clube dos Corações Solitários, que era sempre tão cheio, perdia os frequentadores.
Até uma vez em que vieram no dia marcado só dois gatos pingados. Mas com o Fabiano não tinha essa: serviu um uísque pros caras, e ficaram conversando até de manhã.
Mas o Fabiano sacou que a festa acabara de vez.
E um dia, quando a Dinorá ia viajar para Belo Horizonte, para um congresso de sociologia, perguntou ao Fabiano porque não chamava o Walter para uma conversa. Sentia uma ponta de remorso, e que o problema do Walter era ela. Ela ia ficar fora uma semana, não queria que eles deixassem de serem amigos.
Depois que Fabiano deixou Dinorá no aeroporto, resolver chamar Walter para uma conversa só os dois.
Quando o Walter soube que a Dinorá tinha viajado, acabou aceitando.
Foi uma noite ótima, o Fabiano pôs um disco do Cole Porter para tocar – ele tinha uma coisa meio hipster, saudosa do velho bolachão, tinha uma coleção deles.
De surpresa, lá fora, a chuva caiu forte, relampejando, como acontece às vezes no fim de maio – o último suspiro de chuva, prenúncio da estação seca. E que às vezes é tão forte em Brasília que chega a inundar as ruas.
Mas ali dentro, com uma boa música, criava um clima aconchegante entre os amigos.
Botaram o papo em dia, enxugaram uma garrafa de Smirnoff fazendo caipiroska na cozinha. E numa dessas, enquanto Fabiano preparava mais um drinque, o Walter abraçou ele pelas costas de brincadeira.
Fabiano, sempre descolado, levou-o para dançar na sala. Estava tocando Billie Hollyday. E foram naquela onda, dando muita risada. O Fabiano sempre levando na palhaçada.
E começaram a dançar mais agarradinhos... Botaram um a cabeça no ombro do outro. E algo bateu entre eles.
Quando deram por si, beijavam um ao outro com desejo. E tiraram as roupas ali mesmo.
Eles já dormiam quando Dinorá entrou no apartamento. O voo fora cancelado por causa do mal tempo.
Ela viu aquelas roupas espalhadas na sala... E abriu a porta do quarto lentamente. Para ver, à meia luz do abajur, Walter e Fabiano deitados nus na cama, nos braços um do outro.
Não teve dúvidas. Fechou a porta do quarto sem fazer barulho. E pegou um táxi de volta para sua própria casa.
E não se esqueceu, antes disso, de jogar sua cópia da chave por baixo da porta do apartamento de Fabiano.
De manhã, quando percebeu a chave jogada por baixo da porta, Fabiano tentou ligar para Dinorá, mas ela não atendia.
Walter ficou envergonhado, catando suas roupas na sala, e se vestindo. Fechou a porta do apartamento sem olhar para Fabiano. Que estava sentado no sofá, só de cueca, tentando ligar outra vez no celular.
Assim que Walter entrou no seu carro, as lágrimas encheram seus olhos, até caírem sobre o seu colo. E começou a chorar, soluçando. Descobriu que estava perdidamente apaixonado.
Foi até sua casa nesse estado. E chorou deitado na cama, ainda vestido, até pegar no sono.
Depois disso, Fabiano e Walter ficaram meses sem falar um com o outro.
Assim que acordava, Walter se lembrava de Fabiano. E esse pensamento não o abandonava durante todo o dia.
À noite, saía sozinho, bebia muito, e conheceu uma galera da pesada.
Walter enxugava mesmo. Tomava todas, ficava doido, dizia o que dava na telha. No dia seguinte, destruído, já não conseguia ir trabalhar. E de tanto faltar ao emprego, acabou despedido.
Sem outro jeito, voltou para a casa dos pais. O que foi bom: sem grana, não tinha como seguir aquele povo estranho que conhecera.
Mas ainda fumava muito, um maço de Marlboro todo dia, e ficava direto em frente à TV, sentindo-se a pior pessoa do mundo. Adormecia no sofá, às vezes. E no dia seguinte, assim que abria os olhos, novamente vinha à sua mente a figura bela e risonha de Fabiano.
A cada programa que assistia, a cada revista que lia, via algo de que o amigo iria gostar. Relembrava os bons papos, os tempos do Clube dos Corações Solitários. E se entristecia.
A família não entendia nada. Achava que era por causa da demissão. E empurrava o Walter, sem saber o que fazer, para sair daquele clima e tentar achar um emprego novo.
- Demissão não é o fim do mundo – dizia o pai, sem conseguir esconder o ar de desgosto.
No fim do ano, a mãe de Walter, escondida do pai, deu um dinheiro para Walter:
- Vai, meu filho, vai curtir. Esquece os problemas. Tem uma festa boa de réveillon hoje.
E Walter pegou o carro, que não vendera apesar de tudo. Parecia que ia ser legal o réveillon no Iate Clube.
Mas quando chegou lá... Quem ele vê vestido de branco, com uma garota nova ao seu lado? O velho amigo, agora quase um desconhecido, o Fabiano.
Quase todo mundo estava de branco também, e Walter destoava com seu casaco de couro e sua camisa dos Ramones. E quando os olhares dele e de Fabiano se cruzaram... Fabiano virou para o outro lado, como se não o tivesse visto.
Walter sentiu mais uma vez as lágrimas encherem seus olhos. E antes que desabasse, foi até o banheiro. Tentou passar uma água na cara, mas não podia se conter. Então se trancou em um reservado, e chorou tudo o que tinha para doer.
Mas isso não foi o suficiente. Saiu de lá, o choro já havia passado, lavou a cara outra vez. Ainda sobrara algum dinheiro. E comprou a bebida que podia no bar.
Já era umas três da manhã quando um cara trocou olhares com ele. Tudo bem discreto. O rapaz só piscou, convidativo, e apontou a saída.
No estacionamento mesmo se beijaram. E Walter o seguiu até o apartamento dele.
Quando terminaram, o dia clareava com as primeiras luzes da aurora. Walter despediu-se secamente do fulano, e vestiu-se logo.
E dirigiu de volta para a casa dos seus pais, na 316 sul. Mas quando chegou no bloco não foi para o apartamento deles. Pegou o elevador até o último andar. E para sua sorte, a entrada da cobertura estava aberta. Só subiu alguns lances de escadas, e abriu a porta.
Lá fora, o ar frio misturava-se ao som dos primeiros passarinhos. Acima do sexto andar, a cidade parecia tão calma naquele horário. O sol começava a se levantar, os raios dividiam-se entre as nuvens, pintando-as de um laranja avermelhado.
Walter subiu a beirado do prédio, e ficou ali de pé. Não tinha coragem de olhar para baixo.
Mais um passo...
Então mirou aquele céu da cidade, esplendoroso, que só existe na capital do país. Dali podia ver o horizonte, a quilômetros de distância.
E lembrou-se que era naquele horário que costumava viajar com os pais de carro para o Rio de Janeiro. Costumavam aprontar tudo de madrugada, e pegavam a estrada assim que o sol nascia.
Lembrou-se da curtição que era aquilo, ele e os pais comendo sanduíche que levavam em um isopor. Cantavam no carro, o pai contava histórias da família... A primeira vez que viu o mar quando chegaram...
Do dia em que o pai o ensinou a empinar pipa. Do Parque Ana Lídia, onde brincava na areia, e do brinquedo do foguete, com uma escada por dentro, onde subia e descia.
Do primeiro beijo, em uma menina do colégio. Da primeira vez que olhou outro garoto com desejo, sem entender muito bem o que acontecia consigo mesmo.
Da turma debaixo do bloco, onde brincava de pique-pega. E das árvores onde costumava subir, atrás de uns frutinhos pretos. Tinham gosto de nada, mas era tão bom procurar e colhê-los...
E foi lembrando tudo isso... E de repente o Fabiano, as festas, as bebedeiras, tudo isso pareceu tão pequeno.
Tinha tanto o que viver, como até ali já vivera.
Daria novos passos.
Mas não um passo ali... Na beira do abismo.
E desceu da beirada. Saiu da cobertura. Foi direto para o apartamento de seus pais, que ainda dormiam. Tirou toda a roupa, e dormiu de cueca debaixo do edredon quentinho.
Alguns dias depois, foi procurar o Fabiano. Se ligasse, sabia que ele não ia atender. Por isso foi direto para onde o amigo morava.
No interfone, uma vez feminina atendeu. Não o conhecia. Foi perguntar ao Fabiano.
Walter ficou embaixo do bloco, na expectativa.
Mas o Fabiano pediu para ele subir. A porta fez um click¸e abriu.
Conversaram muito. A namorada do Fabiano era que nem ele, bem alto astral. E trouxe um café para eles.
Walter gostou logo dela, que se chamava Pâmela.
E depois daquela conversa, a amizade voltou aos eixos. E o Fabiano e a Pâmela deram a maior força para o Walter. Ajudaram ele a espalhar currículo, perguntaram para todos os amigos se alguém sabia de uma vaga.
Que logo pintou nos classificados do Correio Brasiliense. O Walter tinha um bom portfólio, e conseguiu o emprego.
Ele continuou na casa dos pais, e optou, em vez de se mudar e pagar aluguel, matricular-se em um bom cursinho à noite. Aprendeu a lição, e quer passar em um bom concurso.
Mas Fabiano e Pâmela são mesmo bons amigos. Os dois resolveram fazer uma surpresa para Walter.
Pois querem arranjar um namorado para ele.
E resolveram reabrir o Clube dos Corações Solitários. Agora em versão gay. Para dar aquela força para o Walter.
Pois amizade verdadeira resiste a qualquer teste, do tempo e dos problemas.
Mas apesar de ele não transparecer, a melancolia de Walter nunca passou completamente. Mas Walter permanece vigilante, e não a deixa crescer. Ela continua uma companhia constante dentro dele. Mas ele sente que ela permanecerá pequena e silenciosa, se ele sempre observar o seu presente, e as inúmeras possibilidades de cada dia.
Antes de mirar novos amores, sempre olhará antes para si mesmo.
Nada novo. Quem é que não faz, ou nunca fez isso? PNC!

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