Pirei no Conto

Pirei no Conto

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Drama: A Flor Orvalhada da Manhã - 1a parte



Quem ama o feio bonito lhe parece, diz o ditado.
Mas ninguém amava Alberto. Na verdade, antes do acidente Alberto era alguém comum: nem feio, nem bonito. Simpático, talvez. Mas caíra de um andaime, durante a construção de um edifício.
Diziam a ele: “você teve sorte, daquela altura, podia ter morrido!”.
De fato, tivera apenas um braço quebrado. Mas também um afundamento permanente em uma das maçãs do rosto, entortando e afundando também o nariz e a boca, no lado esquerdo.
Tornou-se estranho olhar para Alberto. Era como uma figura de desenho animado, plástica, a quem alguém resolvera mover parte do rosto para um só lado. Seria risível, não fosse triste.
Depois do acidente, Alberto não teve mais coragem de olhar-se no espelho. E começou a deixar a barba crescer.
Tornou-se mais recluso. Alguns amigos tentaram animar Alberto, levando-o  a bares e boates. Mas Alberto lá chegava, sentava em um canto, calado, e observava a tudo resignado.
Alguém dizia: “olha, Alberto, veja lá aquela moça!”. Mas assim que Alberto mirava a mulher a quem apontavam, ela logo desviava o olhar. Às vezes, com ar de nojo.
Alberto nunca tivera namorada, e tinha pouco mais de vinte anos.  E agora, tão novo, parecia a ele que não lhe restava a menor esperança.
Começou a fumar e descuidar do quarto na pensão onde morava. Não varria mais o chão, onde se acumulava a poeira e bitucas de cigarro. As roupas eram jogadas a esmo. No quarto não havia janelas, deixando o ar ainda mais carregado. O senhorio começou a reclamar do mau  cheiro.
Alberto ainda trabalhava. Por pena, empregaram-no como office-boy no escritório daquela construtora. Mas às vezes chegava tarde, e levava bronca do chefe. Mas o chefe sabia das dificuldades de Alberto, e fazia vista grossa. Ao menos, Alberto, com todas as dificuldades, continuava a trabalhar bem. E ficava à disposição até mais tarde, para um trabalho extra, caso precisassem.
Mas não era necessariamente para ajudar a empresa que Alberto trabalhava tanto, e ficava até tão tarde às vezes: era o medo de retornar para casa, para a solidão e para o vazio cada vez maiores que dominavam seu peito, assim que atravessava a porta da pensão onde morava.
Alberto saía sempre à noite do trabalho, quando as ruas estavam vazias, quase sem ninguém. Pegava o ônibus, e antes de chegar em casa, ia a um bar perto dali. Comprava um maço de cigarros, uma latinha de cerveja, enquanto olhava soturno para o vazio. Pelo que ele já fora, mas já não era mais. Pelas oportunidades para sempre perdidas.
Uma vez Alberto bebeu tanto que saiu trôpego dali. Mal conseguiu chegar em casa.
Subiu as escadas da pensão com dificuldade.
Foi direto ao banheiro coletivo, passar uma água no rosto. Quando acendeu a luz, ela refletiu numa lâmina de barbear, abandonada por alguém na beirada da pia.
Pegou a lâmina nas mãos, viu seu rosto ali refletido. Permaneceu assim por um longo minuto. Sentou-se sobre a tampa da privada, aquele objeto metálico e cortante entre os dedos.
Passou-se mais um minuto.  E outro ainda.
E por fim, Alberto calmamente colocou de volta a lâmina sobre o local onde a encontrara.
Alberto caminhou até sua porta, e atabalhoadamente conseguiu enfiar a chave na fechadura. Entrou no quarto, onde havia pouco mais de uma cama, um armário e uma cadeira, e deitou-se abruptamente, sem sequer trocar a roupa ou tirar os sapatos. E adormeceu instantaneamente.
Passaram-se algumas horas, quando Alberto por fim despertou. Ainda era de noite.
Ele levantou-se com dificuldade da cama. Deixara a porta do quarto aberta. Caminhou até o banheiro. Estava com sede. Abriu a torneira, e tomou alguns goles d´água.
Quando levantou a cabeça, não pôde evitar olhar-se no espelho. E viu nele não o rapaz acidentado de outrora, mas um anjo, alguém divino, quase diáfano, inumano! Era ele mesmo, com seus próprios traços. Mas de uma beleza perfeita, de linhas desenhadas pelo mais inspirado artista, de proporções áureas e simetria exemplar!
Alberto não conseguia tirar as vistas do espelho.  
Passou as mãos pela face e pela barba mal feita, sem acreditar.
Colocou um casaco. Saiu da pensão e desceu as escadas. Foi ao bar, ainda aberto.
Quando entrou, todos imediatamente viraram-se para ele, magnetizados por sua beleza. Homens e mulheres.
Sentou-se em uma cadeira no balcão, pediu uma cerveja, tirando uma nota amarrotada de dentro do bolso.
A atendente do balcão retrucou, botando uma das mãos sobre a de Alberto, que segurava o dinheiro.
- Guarde. É por conta da casa.
E Alberto pôde sentir o polegar da atendente encostando-se a sua pele, fazendo um carinho pegajoso. Isso agradou de certa forma Alberto, tão carente estava, mas de fato lhe deu uma nova sensação, que ainda não experimentara com as mulheres: um profundo asco.
Sentia-se ainda incomodado com o olhar das outras pessoas. Era algo também novo. Alguns admiravam com paixão. Outros pareciam desnudá-lo com os olhos. E alguns ainda o observavam com ar de vítima, como se ele fosse um ser inalcançável.
Mas ao virar-se, todos tentavam disfarçar, continuando suas conversas. E sentia no ar uma vontade de aproximarem-se dele, misturada a um forte receio e dúvida.
A atendente trouxe para ele a cerveja. Ele fez cara de nojo quando ela olhou para ele daquela maneira. Ela percebeu, e reagiu perguntando de forma grosseira e arrogante, para manter  um pouco de dignidade, se ele queria mais alguma coisa. Com a fala cerrada entre os dentes, ele respondeu que não.
Incomodado com aqueles olhares, Alberto tomou a cerveja quase em um gole só. E voltou para casa.
No dia seguinte, quando voltou ao trabalho, os mesmos colegas que nunca davam bom-dia para Alberto eram tão simpáticos com ele! 
            “Foi cirurgia?”
“Você melhorou muito!”
“Você está tão bonito!”
Ninguém estranhou que Alberto aparecesse com uma aparência tão diferente do dia para a noite. Alberto fora, até aquele momento, alguém invisível, a quem as pessoas não davam importância.
Mas agora o oprimia aquela amabilidade forçada, como se todos quisessem ser seus grandes amigos.
Conversou com seu chefe. Pelo menos ele tinha uma relação sincera com Alberto.
O chefe, sim, estranhou a mudança repentina. Perguntou para Alberto o que acontecera. Ele balbuciou alguma explicação confusa, sobre um tratamento médico. Percebendo que o questionamento incomodava Alberto, o chefe deu-se por satisfeito. Sabia do sofrimento de seu empregado.
Mas, na realidade, assim que Alberto entrara na seção, despertara em seu chefe a mais sincera paixão.

(Continua na 2a parte de "A Flor Orvalhada da Manhã")

Drama: A Flor Orvalhada da Manhã - 2a parte



A ética de seu chefe era manter o profissionalismo. Era uma pessoa séria. Mas era também humano. E o fundo de suas retinas não podia, como o resto do corpo tentava, evitar trair seu verdadeiro sentimento.
Após a breve conversa, o chefe procurou tratá-lo normalmente. Apesar de Alberto perceber que, para alguns trabalhos mais pesados, evitava indicar a ele, com um sorriso amarelado.
Naquele dia, Alberto teve um grande alívio, por não ser mais julgado, mas suportou um peso enorme com aqueles olhares excessivos, enquanto andava pela empresa para exercer seu trabalho. Mas também tinha uma ponta de orgulho: afinal, parecia realmente bonito.
Ao final do expediente, saiu mais cedo: resolveu experimentar voltar para casa, ainda na luz do dia. Os mesmo olhares, da noite anterior e do trabalho, mais uma vez o perseguiam. Alberto tomou coragem, e inflou o peito. Imaginava que agora nada podia temer.
E em seu orgulho, agiu com exagero: quando uma mulher perguntou-lhe as horas, Alberto retrucou, grosseiro e quase gritando, que não tinha relógio. A mulher pareceu desconcertada, mas depois abriu um sorriso envergonhado, pediu desculpas e seguiu seu caminho.
Outra novidade: normalmente, mesmo quando Alberto era gentil, muitas pessoas tratavam-no mal, ou o ignoravam completamente.
Não eram todas é claro: havia pessoas que até então viam em Alberto algo além de seu rosto desconfigurado. Eram amigos, pessoas que realmente gostavam dele. Mas os desconhecidos... Destes, tinha que lidar com a ignorância e a estupidez de nossa espécie.
Mas, mesmo que tivesse esses poucos amigos, foi só depois de mudar de aparência que Alberto foi convidado a exercer um trabalho de verdade na firma.
E com isso, Alberto comprou roupas um pouco melhores. Passou a fazer a barba, a cuidar-se e a dormir melhor. Parou de fumar, e alimentava-se bem. O que só contribuiu para sua aparência tornar-se ainda mais atraente.
 Um dia Alberto caminhava na rua, e sentiu que alguém o perseguia. Finalmente um senhor alcançou-o e lhe deu-lhe um cartão:
RAFAEL MEDEIROS
PRESTIGE MODELS
O senhor lhe explicou que era um olheiro, de uma das maiores agências de modelos do país. E pediu para procurá-lo, se fosse de interesse.
Alberto leu mais uma vez o cartão. E ficou na dúvida.
Na manhã seguinte resolveu ligar do trabalho. Se fosse mau negócio, era só cair fora. Mas quem sabe a sorte não havia sorrido para ele?
E foi assim que Alberto tornou-se modelo profissional.
Começou fazendo pequenos trabalhos. Mas logo decolou. Não era só a beleza. Havia algo em Alberto que transbordava, inebriava... não era somente sexo, mas algo que entrava pelas pupilas, e imprimia dentro de cada um que o encontrava a perfeição por toda a vida procurada e nunca expressa de fato. O verdadeiro e tão negado desejo de cada um de nós. A promessa de completude nunca alcançada.
Era isso que emocionava bookers, fashionistas, editores de moda, estilistas. Cada um via nele aquilo que mais internamente queria.
Mas algo estranho às vezes acontecia. Quando voltava a vestir suas roupas, depois de um ensaio fotográfico, sentia falta de alguma peça. Em geral algo pequeno, como um lenço, ou um cachecol nos dias mais frios. Mas uma vez levaram até sua roupa íntima.
Com tamanho carisma, surgiam novos trabalhos. Capas de revistas, editoriais de moda... logo Alberto foi chamado para aparecer na televisão.
E então novelas, minisséries, programas de auditório. E-mails vinham aos montes, e até mesmo cartas àquela emissora.
Alberto recebia cada vez mais convites.
Mas a essa altura, muitos destes convites eram não profissionais.
No início ele recusava. Acostumara-se àqueles olhares sempre estranhos, sempre desejosos. Nem se importava mais.
Apesar de observar que era cada vez mais assediado.  Algumas vezes recebia cantadas descaradas na rua. Em outras, levava um beliscão no braço. 
Uma vez, estava com uma camiseta cavada, caminhando no parque. E levou de novo um beliscão, de alguém que fazia cooper. Mas desta vez a mulher enfiou a unha, e tirou sangue. Ela apertou o passo da corrida, afastando-se rapidamente, antes que Alberto pudesse esboçar uma reação. 
Mas Alberto pôde ver, por um relance, aquela mulher com um enorme ar de satisfação.
Por isso, começou a temer por aqueles convites. Tinha medo do que poderiam fazer com ele. Temia também não saber mais quem era. Porque ao mesmo tempo estava muito tentado a se entregar àqueles prazeres. Eram pessoas bonitas, interessante... Difícil não aceitar.
Nos bastidores, os elogios repetiam-se. Os flertes também.
“Sou realmente bonito. Por que não dar a eles o que desejam, e aproveitar-me disso?”
E Alberto começou a dizer sim a quem lhe propusesse algo além das câmeras e dos refletores.
Mas ele, que pensou que receberia todo o prazer da carne que a vida até então lhe havia negado, percebeu que não passava de um objeto, de um fantoche, de um fetiche nas mãos de outros.
Por que não era a Alberto que desejavam. Mas àquela casca, àquela beleza, onde projetavam seus desejos mais insanos!
E os convites tornaram-se cada vez mais pesados: primeiro, mulheres, depois homens, sexo a três, até sadomasoquismo. Pediam a ele que os humilhassem, pisassem, batessem.
Por fim, surgiram as orgias, cada vez mais frequentes.
Quando recuava, era cobrado, chantageado, acusado. Cancelariam sua participação em uma novela. Espalhariam suas faltas à imprensa, faminta por artistas em decadência.
Tudo isso atordoava Alberto, e ele já não sabia se dizia “sim” por seu próprio desejo, ou por medo das ameaças.
E assim como o desejo das pessoas aumentava cada vez mais, também a pressão contra Alberto subia, cada vez maior.
Uma vez, na madrugada, nu à beira da janela da suíte mais cara, do hotel mais luxuoso da cidade, Alberto sentiu algo há tanto tempo esquecido: aquele vazio no peito, aquele desespero e solidão presentes em sua antiga vida.
Procurou e encontrou, na mesa de cabeceira, um maço de cigarros abandonado. Ao lado, empilhavam-se os corpos suados de vários homens e mulheres, cansados do bacanal que ocorrera durante a noite.
Fumou na varanda até a primeira luz do amanhecer.
Resolveu vestir-se, os outros ainda dormindo. E desceu o elevador, para procurar uma padaria, atrás de um bom café.
Mas quando pisou na rua, ela já estava cheia de pessoas indo para o trabalho. E quando o viram, sentiram-se atraídas de tal forma por Alberto, que não podiam nada fazer, se não aproximar-se.
A beleza de Alberto era como uma flor frágil, de pétalas delicadas e doçura inefável, cujo orvalho brilhava sob a luz da manhã.
Tão bela... até que um de nós humanos, em nosso egoísmo, resolvamos colhê-la, tomando-a para nós, e destruindo-a para sempre. Não somos generosos o suficiente para deixar a flor viver. Temos que tosar-lhe a vida, tentando tomar a flor para nós.
E foi assim com Alberto. Pobre rapaz. As pessoas na rua chegavam cada vez mais, cercando-o, encantadas com ele.
Queriam-no para si. Puxavam-no. Arrancaram sua roupa, fazendo-a em pedaços. Por fim tocaram sua pele nua, macia, de um tom brilhante e sem máculas. E rasgaram sua carne, cada um sedento por um pedaço, até que sobrasse nada além de uma poça de sangue sobre as pedras da calçada.



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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Os Burocratas





O dia iniciou com a reunião para dar as boas vindas à nova diretoria. Os funcionários daquele órgão público esperavam várias mudanças no rumo daquele lugar.
No discurso de posse, os novos diretores, um a um, explicavam com grande segurança e um discurso empolgado as metas a serem alcançadas, e o caminho para a rapidez e a eficácia.
Davam exemplos: seis meses para licitar! Atraso nas entregas! Computadores obsoletos! Absurdo! Absurdo!
Destacavam o uso do dinheiro público, e o objetivo maior da administração pública: servir eficientemente a todos os cidadãos daquele país.
E garantiam que, com mão de ferro, fariam aquele órgão entrar nos eixos.
No dia seguinte, assim que os primeiros funcionários chegaram ao trabalho souberam da primeira grande medida: mudar o nome das áreas da empresa. Coordenação era agora divisão. Gerência tinha virado Direção. E Diretoria, superintendência. 
Foi uma enorme confusão. O que entregar a quem? Quem era o quê? As pessoas ficavam a esmo no corredor, sem saber o que fazer.
Os novos diretores, agora superintendentes, termo bem mais adequado para aquela dinâmica liderança, garantiram que a confusão inicial era provisória. Para fazer uma omelete, há que serem quebrados alguns ovos. A organização anterior não estava de acordo com as técnicas mais avançadas: estavam ajeitando a casa. E prometeram aos mais afoitos que logo, logo, todos teriam o novo organograma.
Mas passados vários meses, apesar da confusão, todos se acostumaram a saber quem trabalhava no que, e a necessidade de um organograma acabou esquecida.
De vez em quando alguém se confundia, e indagava: e o organograma? Mas tanto havia a ser realizado, que logo voltava a suas tarefas. O que mais podia fazer?
Logo se seguiram a esta outras medidas. Os documentos, antes só assinados pelos chefes diretos, agora precisavam ser assinados pelo chefe do chefe, e pelo chefe deste último. Novos carimbos foram criados, para controle dos memorandos e despachos. A redação dos documentos mudava quase toda semana, conforme cada nova opinião dos superintendentes.
Novos cargos foram criados, mais assinaturas eram necessárias nos papéis. E o tamanho dos documentos se multiplicava. Às vezes havia mais assinatura e autorização no papel do que texto.
Tudo pelo controle! Pela eficiência! Pela eficácia! Bradavam alegres os superintendentes.
E as licitações, que demoravam seis meses, passaram a levar um ano. Antes compravam equipamentos que, por culpa dos atrasos, eram entregues já obsoletos. Mas agora nem eram comprados mais, de tantos requisitos e ritos a cumprir. Os computadores, impressoras, scanners e afins, quebravam, e não eram mais substituídos.
E os pedidos, as requisições, os projetos, eram cada vez mais detalhados, esmerados, controlados, numerados, carimbados, assinados. Cada memorando, cada ofício... dava gosto! Levavam horas e horas se esmerando em um pedido, nem que fosse para comprar um galão de água, ou uma caixa de lápis.
Ah, mas o que são essas coisas mundanas? Um lápis é útil para escrever, a água mata a sede de quem trabalha. Mas um despacho... era uma perfeição. Uma vez anexado a um processo, e o processo sendo arquivado, duraria para sempre, pelas próximas gerações!
E nas reuniões com os funcionários, os superintendentes orgulhavam-se, e apontavam números que demonstravam o crescimento, os melhoramentos, passando a limpo aquele lugar.
Uma noite, o superintendente -chefe sonhou com aquele órgão. Mas que sonho encantador! Os funcionários vestidos de monges, isolados em suas celas de mosteiro, copiando com pena e tinteiro cada documento, cada relatório. Eram escritos com caligrafia cuidadosa em pergaminhos imaculados. Além de escrever, desenhavam iluminuras, e passavam ali, no mesmo documento, aperfeiçoando e enfeitando, dias e dias sem mais poder.
Eram verdadeiras obras de arte.
Mas no mesmo sonho, mirando pela janela do mosteiro lá fora, nas ruas o povo sofria, sem ninguém a olhar por eles, em um país estagnado, que retornava à Idade Média.

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Contatos do Blog!

Novidade boa: agora o blog tem um e-mail de contato!

pireinoconto@gmail.com

Agora você pode comentar, sugerir, questionar, perguntar... Vem pirar, que a casa é sua!

E agradeço o contato de alguns leitores pelo facebook e pelo whatsapp, ou aqui mesmo no blog, é muito importante esse carinho! E estimula a aperfeiçoar cada vez mais esse trabalho, que é pra vocês!

O projeto está só no começo, mas mais coisa vem por aí!

Abração! E um buquê de flores do Cerrado pra vocês!

Felipe Berlim


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Agradecimentos e Novidades

Gostaria de iniciar esse post agradecendo aos amigos e colaboradores que ajudaram a dar o pontapé inicial nesse projeto. Em pouco menos de uma semana, o blog contou com mais de 400 acessos, o que para alguém iniciante é uma grata surpresa. Muito obrigado a todos!

Em segundo lugar gostaria de agradecer aos colegas de escrita que concederam as entrevistas e disponibilizaram gentilmente seu material para o blog. Também meu muito obrigado!

Ah, e logo novas entrevistas com o pessoal talentosíssimo da cidade, não só de literatura, mas artes plásticas, música, enfim... A cultura em Brasília está bombando, a cidade está mostrando sua cara e criando uma identidade muito própria e especial!

Por fim, dentro do espírito de experimentação do blog, estou postando hoje, em duas partes, o conto "A Herança", em que faço minha incursão no gênero do suspense e do terror... Espero que vocês gostem!

E claro, vem pirar no conto! ;)

Abração a todos!

Felipe Berlim

Conto de Terror: "A Herança" - 1a parte




Augusto crescera sozinho, até a vida adulta, no Orfanato Pio XII, o único que existia na cidade. Os cuidadores lhe diziam que a mãe ficara muito doente, e falecera.
Quando adolescente, Augusto pôde por fim saber a verdade: sua mãe matara o pai de Augusto, após um surto psicótico, alguns dias depois de seu nascimento. E fora internada no hospital psiquiátrico da cidade. Nunca teve coragem de visitar a mãe.
Quando cresceu, foi obrigado a sair do orfanato, e conseguiu um emprego de office-boy. Na firma, conheceu sua futura esposa, Nayara. Ela vinha de uma família tradicional, que se opunha ao namoro.
Mas Augusto conseguiu um emprego mais estável na firma, começando como vendedor, e após alguns anos de muito esforço chegou a gerente da filial local.
Quando a família de Nayara percebeu a capacidade e tenacidade daquele rapaz, sentiu-se mais segura, e por fim Nayara e Augusto puderam se casar.
O nascimento do filho do casal, Júnior, coroou uma relação de amizade e cumplicidade, que nada poderia romper.
Nayara também começou a trabalhar, e juntos, conseguiram trocar a pequena casa em que moravam de aluguel por um belo sobrado em um distrito próximo. Por fim, após tanta batalha, Augusto usufruía de uma vida confortável ao lado da esposa, junto com o filho, que acabara de completar sete anos.
Porém, há poucos dias, soube da morte de sua mãe por causas naturais. Uma enfermeira ligou para a casa de Augusto, informando o falecimento, e relatando a existência de uma caixa. Dentro dela restavam os últimos pertences daquela mulher.
Nayara, a esposa de Augusto, incentivou-o a ir ao hospital. Era uma forma de encerrar aquele capítulo da vida dele. Eram agora felizes, e ela não queria nada que atrapalhasse o futuro de seu marido.
No dia marcado, Augusto não foi ao trabalho. Deixou a maleta 007 que levava todos os dias ao serviço na escrivaninha do escritório. E tomando coragem, deu um beijo na esposa na porta de casa, e entrou no carro com destino ao sanatório municipal.
Quando viu o hospital, não pôde deixar de pensar melancólico que aquele fora o último lar de sua mãe, onde passou os últimos anos de vida.
Encontrou a enfermeira que o havia contatado, e ela o acompanhou até um depósito nos fundos do hospital.
Entre vários equipamentos hospitalares já obsoletos, a enfermeira apontou para uma caixa.
Era uma caixa grande de papelão. Augusto carregou-a dali com alguma dificuldade. Perguntou à enfermeira se não havia alguma sala vazia, onde pudesse olhar com calma o conteúdo.
Ela assentiu com a cabeça, e solicitou que ele a seguisse por um corredor. Ao longe, Augusto podia ouvir um dos pacientes gritando, as palavras ininteligíveis. A enfermeira apontou uma porta entreaberta. Na sala havia uma mesa e duas cadeiras. Uma grade de ferro envolvia a janela.
- Bom dia, senhor Augusto. – despediu-se a enfermeira.
Ele colocou aquele peso sobre a mesa, e sentou-se. Rompeu a fita adesiva com a chave do carro, e abriu a caixa. Viu com surpresa que no interior somente havia diversos pequenos cadernos. Estavam todos numerados na aba, de 1 a 34, organizados em ordem crescente.
Retirou o caderno com o número 1. A capa mudara de cor, de um azul escuro para lilás, com os cantos se rasgando e as páginas amareladas e empoeiradas. Augusto abriu na primeira página, e percebeu tratar-se de uma espécie de diário.

“7 de abril de 1980
Meu filho acaba de nascer.
Dizem que todos os recém-nascidos são iguais, mas ele se parece com o pai, o que me angustia mais ainda.
 Sinto que meu bebê e eu somos dois estranhos que acabaram de se conhecer, e me sinto culpada por me sentir assim. Todos dizem que é o momento mais bonito na vida de uma mulher, mas até agora só senti dor.”

Augusto parou a leitura. Era o primeiro contato em sua vida com a mulher que fora sua mãe. Nunca soube ao certo o dia em que nascera. Vontade de fumar. Foi até a janela respirar um pouco. Os passos faziam eco dentro da sala. A janela com grades dava para um pátio interno, onde alguns pacientes perambulavam, tomando o banho de sol.
Augusto sentou-se novamente, e virou a página. Sem dúvida era a mesma pessoa quem tinha escrito ali. Mas as letras encontravam-se empilhadas uma em cima da outra, quase não sobrando espaço entre as palavras. A caneta havia sido pressionada fortemente, criando sulcos no papel, profundos o suficiente para se sentir com o tato. Augusto leu com dificuldade o texto.

“8 de abril de 1980
Ontem à noite um anjo veio me visitar. Seu rosto e sua voz não eram de homem ou de mulher.”

A fronte de Augusto se fechou, seus olhos se apertaram.

“Sua auréola era prateada, assim como seus olhos e sua pele. Suas asas eram amarelas e macias. Não parecia branco, negro ou asiático, mas uma mistura de todas as raças, e ao mesmo tempo, de nenhuma delas. Sua luz tingia todo o quarto de muita calma, parei de sentir dores, frio ou calor. Senti no meu coração uma ternura como nunca antes.”

Apesar do tratamento psiquiátrico, diziam que sua mãe era calma e dócil, mesmo depois da internação. Seu comportamento fazia as pessoas duvidarem que pudesse haver cometido um ato tão cruel na própria família.  Augusto lembrava-se de um vulto, de uma voz terna, de um perfume doce. Mas era só.

“O anjo me disse que seu nome era Ismael. Que vinha em nome de Nossa Senhora de Fátima. E me disse para começar a escrever.”

Augusto virou a página, apenas para ler horrorizado:

“Meu filho, sei que você neste momento está começando a ler o meu diário. Ele é a sua própria história. Um anjo me concedeu o milagre de revelar todo o seu destino deste momento em diante.
Você agora, adulto, está sentado no quarto onde viverei quase toda a minha vida, no hospital psiquiátrico onde serei internada, e de onde nunca sairei.”

Um choque percorreu seu corpo. Uma cortina tênue desceu sobre seus olhos. Parecia imerso em um sonho. Não sentia mais o corpo. Ou antes, sentia o corpo, como quem o observa de fora. A sensação durou um milésimo de segundo.
Augusto recobrou sua razão: por certo era a loucura de sua mãe que a fizera escrever o que acabara de ler.
Fechou o caderno. Recolocou-o no lugar original, e fechou a caixa. Caminhou novamente pelo corredor estreito, e por fim até a saída do hospital. Respirou aliviado o ar puro do lado de fora. Tirou um maço de cigarros do bolso. Acendeu um deles, e tragou demoradamente.
Enquanto conduzia o carro de volta para casa, Augusto fumava seu cigarro, batendo a cinza pela janela. O sol quase se escondia atrás de uma enorme nuvem negra de chuva no fim da estrada. Faltavam ainda uns poucos quilômetros, e alguns pingos de chuva começaram a cair.
Augusto jogou a bituca pela janela, ao mesmo tempo em que pensava na esposa. Provavelmente ela sentiria o cheiro da fumaça em suas roupas e no carro, lamentando mais uma vez por ele ter fumado.

*                                                *                                                              *

Lembremos que, rotineiramente, todos os dias Augusto levava uma maleta 007 para o trabalho. Mas naquele dia pedira dispensa para ir ao hospital e identificar os objetos de sua mãe. E a maleta havia ficado em casa, no escritório. Ela sempre permanecia fechada, e só Augusto possuía o segredo.
Como era uma maleta de trabalho, nunca chamara a atenção de Nayara, muito menos a ela importara que só Augusto tivesse a senha para abrir o fecho. Não possuíam segredos um para o outro. E Nayara sabia reconhecer todos os sentimentos de Augusto. Era alguém transparente para ela. Pelo menos ela assim pensava.
Até este dia.
Nayara estava no banho.
A maleta, sozinha no escritório, fez um clique, e abriu.
Enquanto se enxugava, Nayara ouviu o telefone do escritório tocando. Enrolou-se na toalha rapidamente, e correu para o escritório para atender. Devia ser Augusto ligando.
- Alô? – respondeu ela. Mas a linha caiu.
Nayara sentou-se um pouco na poltrona do marido, em frente à escrivaninha. Do lado de fora da janela, caíam alguns pingos de chuva. Ao longe, no horizonte, aproximava-se uma nuvem pesada e escura, um prenúncio de tempestade.
À frente da janela, sobre a escrivaninha, observou a maleta. O fecho aberto.
- Mãe, posso jogar videogame? – era o Júnior, no corredor, na porta do escritório. Nayara olhou para ele com doçura. Mas devia ser firme.
- Depois do dever de casa, meu filho.
- Mas mãe...
- Nada de “mas”. Agora. Feche a porta do seu quarto. Não quero ouvir um pio, ok?
O filho se afastou. E os olhos de Nayara voltaram a se fixar naquela maleta.
Normalmente não mexeria nas coisas do marido sem o consentimento dele. Mas algo lhe dizia: não há nada demais olhar ali dentro. Afinal, não havia segredos entre ela e Augusto.


(Continua na 2a parte do Conto "A Herança")